O poema

o poema enfim assenta ao corpo todos os meus pecados, voo livre pro peso dos desejos que encharcam as asas dos anjos   há os céus e a cidade da menina que adora os livros que recitam o corpo dela pelas ruas   e ele recende mais do que as hastes de rosmaninho   Anúncios

Bordados

  Olho a cidade à noite: um bordado a ponto de luz guiando os olhos pelo corpo de suas ruas   numa gaveta nalgum canto dentro de casa a toalha branca bordada a ponto de cruz pelas mãos de Teresa   o inverno de anuncia lá fora no tempo  

Poeta de mim

    Eu sou o poeta do quintal aqui de casa,   de seus mistérios e de suas mitologias mínimos   do silêncio de suas pequenas vozes, polifônicas, por vezes, sem ancestrais ruídos   canto do desafino do canto dos galos – do engasgo do galo gago   o desando dos caminhos tortuosos da formiga […]

Diálogo

  O poeta despojado das grandes árvores do jardins conhecidos pela primavera trazida ao corpo   olha apenas o quintal de sua casa por onde grassa na contramão de tanto secura pequenas plantas rizomáticas a florir quase sem perfumes   os lilases da América púrpura ficam longe e vêm na lembrança da manta espessa que […]

Ramo verde de manjericão

  (Para Amós Oz)   Houve um tempo em que a paz era haste verde e perfumada de manjericão ressecando-se nas mãos de Oz com os olhos cheios da cidade e o Oriente todo suspenso nesse ramo frágil contra o qual os ventos sopravam fortes em todas as direções   agora, cessaram-se os ventos – […]

A cidade se desperta

  A cidade amanhece, lentamente o desalinho da noite de sono vai-se arranjando ao corpo como se apagam pelas ruas os pequenos núcleos de escuridão resistentes à luz do dia   na rua por onde caminho a árvore, mesmo coberta do véu de lama que combina restos de enxurrada, polímero asfáltico e outras sujeiras amanhece […]